Da Série: Ficção não tão fictícia.
Minha tristeza não é dessas duradouras, não é uma daquelas em que não se vê luz no fim do túnel. Não, não. Minha tristeza é breve. Ela se ocupa de guardar lugar em um coração há tempos abandonado. Ela cerca com a lembrança do que poderia ter sido. Ela me ocupa com pensamentos distintos, que causam pena mesmo.
Ela toma minha cabeça de forma inevitável. Ela me diz que eu deveria ter tentado mais. Ela diz que o não tentar é improdutivo, inútil. Ela vem para levantar dúvidas quanto ao que é, o que foi, o que será, o que deveria ser e o que deveria ter sido. Ela é perceptivelmente constituída de tempos verbais.
Essa é minha tristeza. Ela é de caráter dócil, sem me atacar com agressões. É uma tristeza de sutilezas, vê vc amigo. Ela se faz minha companheira nesses dias cinzas, de um outono pessoal e intransferível.
De vez em quando ela assume esse caráter impetuoso dela, que só um gole seco de conhaque acalma. É quando ela me afaga e diz que está tudo bem, que amanhã ela terá ido embora. Mas quando acordo, o gosto de cabo de guarda chuva denuncia que ela ainda está lá. Deitada ao meu lado, me contemplando como um amante o faria. Dizendo que a triste dor da partida se faz breve. E eu sei que é.
Um dia, junto com os goles de conhaque, ela me abandonará. Não estarei menos bêbada, mas estarei definitivamente feliz.

Vc foi embora e só deixou os rastros da sua presença.
Escrito por Mestre de Obras Estranha às 17h08
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