Da Série "Alvi-branco"
Segundo o jornal, hoje é dia 14 de agosto de 2006. Isso é impossível. Ontem foi dia 19 de abril. Estou perdido, talvez tenha ficado louco. Só pode ser sandice, nada disso é verdade. Esse não é o lugar onde vivi minha vida inteira. NÃO. Preciso acordar. Preciso fazer alguma coisa que me leve de volta à realidade. Preciso sair daqui! Tudo ilusão, mentira!
E eis que tudo se fez... escuridão.
Acordo em um quarto branco, parcamente mobiliado. Tudo é branco, os móveis, as paredes, as flores e cortinas. Não há um único quadro na parede. Um pássaro pousa no beiral da janela. O pássaro também é branco. Espere um minuto, tem algo surgindo, algo se levantando atrás das cortinas! É... ... uma moça. "Alva", diz que esse é seu nome. É branca, mas está curiosamente vestida de amarelo. Vestido amarelo, com mangas curtas. Quem é essa menina? Apesar do claro asseio em sua tez, ela é mal cuidada e tem os cabelos desgrenhados. Cabelos cacheados de um louro juvenil, olhos grandes e redondos, escuros. A primeira coisa escura que vejo desde que surtei. Seu rosto é quadrado e ela tem largos lábios. Ela sorri.
-Oi estrangeiro. Está melhor?
Me sento num salto.
-Onde estou, quem é você e que dia é hoje?
-Você está em minha casa, eu sou Alva e hoje é dia 14 de agosto de 2006.
-O que aconteceu com... esse lugar... onde estamos?
-Como assim, onde estamos? Estamos na Terra, oras!
-Terra, imaginava. Que país é esse? (Subitamente me lembrei da música do Legião Urbana. Quis morrer mais uma vez.)
-País? O que é um país?
Pânico. A mocinha Alva não sabe o que é um país. Talvez seja tão burra que não reconhece um rolo de papel higiênico. Ou, talvez, eu tenha morrido.
-Eu morri?
-COMO ASSIM?
-Claramente não morri...
-Olha... é... como é mesmo seu nome?
-Jeremias.
-Olha Jeremias, eu não sei o que aconteceu com vc. Sei que o encontrei estirado no jardim da Dona Branca, e ela não gosta nada, nada quando homens se deitam no jardim dela. Ela tem ciúmes das flores sabe, as flores púrpuras.
-Sei. Vc pode me dar um copo d'água?
-Posso sim. Vc quer se levantar da cama? Talvez faça bem esticar as pernas, sabe, caminhar.
-Tem razão, posso estar enfermo.- Voz interior -Talvez já esteja em uma instituição para dementes.
-Por aqui.
Ela entrou pela janela mesmo, como um moleque. Carregava alguns utensílios de jardinagem e os largou no chão, me levou até a cozinha. Tudo era branco, tão branco que me causava tristeza. Todos os móveis, cortinas, tapeçarias, toda a decoração, louças, toalhas, copos, talheres. Tudo branco. Curiosamente noto que é a primeira vez que vejo uma casa sem televisão e sem quadros. Vejo inúmeros jornais e revistas, mas nada que contenha uma imagem. Talvez essa tal de Alva seja mais maluca que eu.
-Aqui, tome. Beba devagar, cuidado pra não engasgar.
Bebi. Me dirigi até o banheiro para urinar e notei algo ainda mais curioso. Não havia espelho.
-Por quê vc não tem uma televisão na sua casa? Ou um espelho...
-Como? Tel... tele... espelho? O que é um espelho?
Preciso de um cigarro. URGENTEMENTE!
-Alva, por favor, onde tem um boteco ou padaria por aqui? Preciso comprar cigarros e raciocinar direito, estou um tanto confuso...
-Ah sim. Tem os dois, os dois são perto. Quer que vá para vc?
-Não, não, preciso caminhar, como vc mesma disse.
-Tudo bem, mas vou te acompanhar. Pelo visto não é seguro deixar vc andando por aí sozinho, vai que encontra a Dona Branca...
-Sim, vamos.
Ponho os pés na rua e não acredito. Nunca vi uma quantidade tão exorbitante de flores, todas muito coloridas. Cores que eu nem imaginava que existissem. O concreto da rua, as construções, as casas e prédios, canteiros, sinalizações, carros, tudo era branco, exceto pelas roupas, flores e o céu. O céu era de um azul que nunca vi. As pessoas estavam todas descabeladas e eram feias. Não feias de nascença, mas algo as tornava feias, como Alva. Eram todos mal cuidados. Nem um único homem tinha o rosto liso, todos tinham barba e bigode. Uns longos, outros mais curtos, alguns falhos,outros fartos. Mas todos barbudos. E as mulheres... elas não tinham cores. De rosto elas pareciam cangaceiras como Sinhá Vitória em "Vidas Secas", embora fossem muito limpas e cheirassem extremamente bem. Como Alva, ela cheira tão bem que não quero sair de perto dela. Todos me estranham, menos a menina ao meu lado. O único homem sem barba nesse lugar esquisito e claro, ela deve ter ficado, no mínimo, curiosa.
-Um Malrboro, por favor. -É um real. -Como assim, um real? Quantos cigarros tem nesse maço? -Vinte, ué. -Tem certeza? -Se não quer, não vendo! -Tudo bem, um real.
A nota na minha mão... ela está lisa. Verde, mas sem imagem alguma. Olho para o boteco, não há UM ÚNICO CARTAZ COM IMAGENS! Cartazes de cerveja, sorvete, o maço de cigarros. Todos os anúncios são escritos, mas não têm imagem! NÃO HÁ IMAGENS!
Saímos do boteco e vamos dar um passeio.
-Quer tomar uma coca cola, estrangeiro? -Por quê vc me chama de estrangeiro? Já disse meu nome. -Nunca te vi e nunca vi igual a vc. Então é estrangeiro. -Sei. Uma coca cola? Pode ser.
Sentamos em uma lanchonete, cuja logo marca, é claro, não tem desenhos, apenas letras. A garrafa de Coca Cola não tem aquele traço branco, apenas letras brancas e comuns no fundo vermelho. Letras comuns como todo o resto. A garrafa de vidro não brilha.
-Alva, por quê não existe nenhuma imagem nesse lugar? -Imagem? -É, fotografias, gravuras, desenhos, pinturas, essas coisas. Não vi nenhuma até agora. -É pq vc está inventando essas palavras esquisitas. Nunca ouvi falar em imagem. -...
Percebi tudo. Esse lugar, ele não possui imagens. Não existem espelhos. Nada brilha, tudo é fosco. Nada reflete a imagem de ninguém. De repente caiu a ficha! As pessoas não se arrumam pq não se enxergam! Não existem desenhos ou imagens! NÃO EXISTE COMUNICAÇÃO VISUAL! NÃO EXISTEM OUT-DOORS! APENAS PALAVRAS COM A MESMA FONTE!
E eis que tudo se fez... escuridão.

Escrito por Mestre de Obras Estranha às 01h04
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